De acordo com Murray Shafer em suas pesquisas mundiais sobre a “paisagem sonora”, todos os anos o nível de intensidade sonora cresce a níveis alarmantes para nossa saúde.
A tecnologia e o consumo crescente, ao invés de trabalharem na direção de tornarem o mundo menos poluído, parecem rumar sem o mínimo de senso crítico e visão de futuro.
Na música, infelizmente, não é diferente. Quando olhamos para o século XX e este início de século XXI nos deparamos com um mundo e uma música cada vez mais ruidosa e muitas vezes totalmente desprovida de necessidade e auto-crítica.
Com a descoberta da gravação e da reprodução aliada à ascensão das mídias de massa (com seus ídolos fabricados, suas propagandas ininterruptas, e sua busca por enriquecimento e poder a todo custo (mesmo que para isso destrua a mente de gerações e povos inteiros)), o que era pra ser uma descoberta fabulosa da parte dos cientistas se tornou uma arma de manipulação e gestação de poluição e alienação em proporções antes inimagináveis.
Com isso, hoje ouvimos a grande música ocidental que se desenvolveu outrora por séculos (a música tonal) sendo deturpada, plastificada e vomitada na imensa parte das vezes para suprir demandas em torno de funções extra-musicais (criar um fundo sonoro que não permita um pensamento reflexivo – espécie de narcose e obsessão auditiva -, impedir o silêncio numa roda de pessoas, dar sustentação a ambientes onde se procuram parceiros e ou drogas, impelir pessoas a dançar ou se exercitar trespassadas por uma batida intensa e ininterrupta, tudo isso sem contar o enriquecimento nas custas da ignorância alheia por parte dos empresários, produtores e “músicos” (?) de modo geral).
Deixando as mídias de lado, que muitos já devem ter consciência das entrelinhas, as auto-denominadas vanguardas e a dita música experimental muitas vezes trilham um caminho parecido. Discordo em boa parte daqueles que vêem na necessidade do estudo formal a única possibilidade de renovação da música (libertação dos sons, das formas; em suma: das impressões, meios e expressões), mas discordo completamente daqueles que dizem fazer música a partir de um vale-tudismo sem o mínimo de auto-crítica e senso de onde e como estão se inserindo na música de nossa época e na história de modo geral. Aqui caímos no terreno incerto do delineamento, importância e embate entre música absoluta (a música pela música) e música descritiva (a que tenta descrever algo e gerar estados de espírito (levando em conta que os meios e a denominação são discutíveis)). Hoje já se tornou clichê na música de cunho especulativo e auto-denominada experimental haver “ruído por ruído” e “caos por caos” (em termos estruturais), clichês que, a meu ver, já perderam muito de sua força e necessidade em vista das décadas em que tal música é feita e da crescente intensidade sonora e geração de novos timbres em todo o mundo (seja ou não em se tratando de música).
Voltando ao geral, alguns pontos interessantes a serem levantados são, por exemplo:
1) Novamente de acordo com Murray Shafer nas “culturas primitivas” ao redor do globo se encontram 69% de sons naturais, 26% de sons humanos e 5% de sons tecnológicos; nos locais urbanizados atualmente se encontra curiosamente uma estatística que quase é exatamente oposta em relação à tecnologia no lugar dos sons naturais. A porcentagem é 6% de sons naturais, 26% de sons humanos e 68% de sons tecnológicos.
É óbvio que todo este mundo de sons reflete-se diretamente em nossa subjetividade e percepção (de si e do mundo).
2) A perda auditiva é inevitável e irreversível no ser humano; nascemos com um número fixo de células receptivas e as perdermos ao longo dos anos. Com essa taxa enorme de intensidade sonora, a perda é maximizada e se mostra muito mais precocemente do que nas antigas gerações.
3) Não há necessidade de criar uma música extremamente densa ou intensa (em termos de volume) para transmitir uma impressão forte e profunda.
Se levarmos em conta os levantamentos de Shafer e o próprio voltar a si de nossos pensamentos em reclusão (tentando silenciar nossa mente), observaremos que há uma necessidade urgente de reaver momentos de quietude, instrospecção e afastamento desse mundo repleto de poluição e informação de todos os gêneros, além de rever nossos hábitos e modos de percepção que há muito quase sempre tornaram-se desprovidos de senso crítico.
Gostaria de fechar este pequeno post (que, espero, levante possíveis reflexões e debates) com duas mentes na contramão do crescente ruído e coisificação da música humana. O primeiro link é uma música do compositor Arvo Pärt e o segundo é o link para o álbum The Sound of Zen de Atsuya Okuda, mestre na shakuhachi (um tipo de flauta de bambu muito utilizado na música tradicional japonesa e em determinadas práticas meditativas).
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O motivo das escolhas vocês compreenderão melhor ao penetrarem fundo nesses mundos de som e silêncio. Reclusão e busca por um ambiente calmo são altamente indicados.
A todos uma audição consciente.



Abaixo deixo um comentário extremamente pertinente que o grande amigo e compositor George Cristian deixou no meu facebook:
“Um comentário, fá-lo-ei aqui! O que você escreveu aqui não reflete somente suas crenças pessoais em torno da necessidade de pureza e integridade sonoras, mas é também um sério manifesto sobre a necessidade de escutarmos mais e mais o silêncio (e a Natureza). Concordo com muito do que escreveu, acho sua crítica ao experimentalismo pelo experimentalismo e o massivo prejuízo da música mercadológica realmente no ponto, assim como também a contribuição trazida pelo pensamento de R. Murray Schafer, músico, compositor e pedagogo de profícua importância. Gostaria de ressaltar e acrescentar que problema disso se encontra não somente numa carência de visão auto-crítica mais profunda, mas também no fato de haver uma carência de alvos realmente dignos de serem atacados. O discurso se encontra muito mais numa ênfase destrutiva em torno das possibilidades Ou a música é para o prazer ou para o ócio entorpecido, nunca para a reflexão. Não se percebe de fato qual os meios de concentrar uma musicalidade que coadune e integralize seus recursos à mensagem. E isso é fruto de uma crescente fragmentação psíquica também; pessoas com reais potencialidades musicais acabam sendo parte do mesmo jogo de gente cuja musicalidade é pífia. Enfim, há um nivelamento por baixo crasso, e os que estão lúcidos o suficiente percebem que a música é um meio real de salvação e cura para a alma. Acho que seu discurso pertence a essa corrente de lucidez. Mas há, Thiago, por um outro lado, uma necessidade de comunicação de afetividades mais simples (até porque o ser humano não é complexo o tempo todo), coisa que deveria ser um real objetivo na música pop, mas que infelizmente acaba sendo uma piada de mal-gosto. Daí, é uma questão de separar o joio do trigo, de ver quais são os reais produtos de limpeza para alma. Penso que ainda há gente no mercado que quer apenas o lucro pelo lucro como também há artistas sensíveis dentro desse cenário para transmitir algo além do mero lucro. O profissionalismo deveria existir em vias dessa necessidade, não pela impostação do ego. É isso”.