No Brasil praticamente não se ouve falar em improvisação livre, mas o caminho-pensamento já existe pelo menos há quase meio século nos Estados Unidos, no Japão e na Europa.
A meu ver, existem pelo menos dois caminhos na música do Século XX que conduziram ao que chamamos atualmente por improvisação livre.
O primeiro é fruto da crescente complexificação do Jazz norte-americano, o segundo nasce com os experimentos e pesquisas musicais no campo “erudito”.
O jazz, cujo nascimento remonta ao início do século XX, a grosso modo surge do choque de parte da cultura africana (proveniente dos negros que foram para os EUA) com a nova situação enfrentada no continente americano, com outra cultura.
O Jazz, ao longo do tempo, saiu do que era feito instintivamente, fruto de tradição cultural, e partiu para uma complexificação cada vez maior em relação a técnicas instrumentais, harmonizações, estruturas, ritmos, arranjos, etc…
Como todo processo de aculturação, o que de início era expressão dos negros que viviam em condições dificílimas em solo americano, acabou por se transformar em inúmeras expressões muitas vezes totalmente díspares tanto no que se refere à técnica, quanto ao que cumpriam por função. Com isso, aos poucos surgiu uma profissionalização do jazz, um mercado e espaços próprios para músicos e, junto disso, sistematizações, clichês (harmônicos, melódicos, de fraseados que permeavam as improvisações) e, como consequências, sub-gêneros e estéticas.
Assim, dando um salto imenso, na década de 50 se podia ver o mesmo termo “jazz” sendo usado como música para dançar, para trilha sonora, e, nesse meio todo, uma faceta que participava de boa parcela da inovação da música instrumental popular norte-americana que agregou as mais diversas influências (rock, pop, música erudita “avant-garde”). Assim ao longo do tempo vemos o bebop, o “jazz fusion” e tantos outros sub-gêneros.
Um desses sub-gêneros – o free-jazz – surgia por volta da década de 50 como expressão de alguns dos mais prolíficos e não satisfeitos instrumentistas e compositores que beberam das idéias e expressões das antigas formas de Jazz. Nele, Cecil Taylor e Ornette Coleman, dois dos pioneiros do Free, criavam com seus parceiros músicas onde os instrumentistas podiam caminhar por inúmeras linhas diversas (rítmicas, harmônicas, melódicas) para convergir para um mesmo fim. Muitos tradicionalistas afirmaram que aquilo não era Jazz, mas o fato é que homens como John Coltrane, que vivenciou boa parte da história e da evolução das tradições jazzísticas, aderiram ao caminho e demonstraram com grande domínio que havia todo um novo horizonte de possibilidades sonoras a serem vivenciadas e descobertas.
À parte isso, no campo da música tomada por “erudita” (ver “música de pesquisa” clicando aqui e conferir os exemplos musicais a partir dos nomes aqui), a música vinha num crescente agregar de novas idéias, sonoridades e formas de organização, o que, após a Segunda Guerra Mundial, acabou desembocando num sem número de caminhos. Um desses caminhos era o de utilizar “técnicas extendidas” (técnicas novas ou não comumente usuais) em instrumentos convencionais para gerar novas sonoridades e possibilidades de discurso musical. Isso, somado ao crescendo nas pesquisas em música concreta e eletrônica, ao atonalismo e seus desdobramentos (serialismo, música estocástica, entre outros), refletiu nos músicos, principalmente europeus ligados às propostas do Free Jazz (que não tinham uma tradição enraizada como a dos americanos), novas necessidades e ferramentas no campo da improvisação.
Assim, numa Europa marcada pela Segunda Guerra, não havendo necessidade de um discurso musical baseado nas tradições tonais (a grosso modo relaxamento, desenvolvimento e tensão), com inúmeras sonoridades aflorando para todos os lados, com a possibilidade de se improvisar, de explorar os limites da música e dos instrumentos a mão, os europeus se viram num contexto propício para um mergulho sem regras fixas no campo da improvisação.
Eis que surgem nomes como Derek Bailey, Evan Parker, Han Bennink, Peter Brötzmann, entre outros, que encabeçaram o movimento da improvisação livre na Europa. O interessante de tal campo é que, além da total liberdade para a utilização de quaisquer elementos sonoros (incluindo, hoje, a utilização de objetos, instrumentos acústicos e eletrônicos), há a possibilidade para uma exploração que tende ao infinitesimal e à não-repetição no que tende ao discurso musical, quando os músicos se mostram “antenados” aos caminhos que o outro está tomando num dado instante e inserem sua particularidade e vontade sobre a música.
Se fosse para fazer um paralelo com as artes plásticas, diria que a improvisação livre muitas vezes lembra uma espécie de “expressionismo abstrato” em seus momentos que nos remetem ao menos usual possível em relação a algo já existente na música de outrora.
Após um primeiro momento de grande carga enérgica e (para muitos) ruidosa e agressiva ao extremo, a improvisação livre, como a música erudita contemporânea, parece passar por um momento de maior introspecção por parte dos músicos, buscando antes passagens, apesar de bastante abstratas, bem direcionadas, equilibradas e de enorme riqueza expressiva, como se pode conferir nos atuais álbuns que lidam com música improvisada.
Um bom blog em português para se conferir parte do que está sendo feito nesse cenário é o Free Form, Free Jazz do pesquisador Fabricio Vieira.
Em breve retorno com postagens mais detalhadas e menos gerais, pois agora estou de férias.
Um abraço a todos
Thiago Miotto

Thiago, muito bom texto. É uma pena que a improvisação livre ainda não seja ‘digerida’ pelo público como o expressionismo abstrato. O curioso é que muita gente culturalmente bem formada e informada vai citar, sem titubear, James Joyce como referência de experimentação na literatura, Godard no cinema, Pollock na pintura: mas quando o assunto é música…
Pois é… já pensei um bocado a respeito dos motivos para a grande música ser tão desconhecida do público geral. Alguns são fáceis de se levantar, como a influência da indústria cultural e a falta de educação musical.
Muitas vezes penso que alguns tipos de arte que não a música chocam, mas dão mais “tempo e espaço” às pessoas para que possam adaptar aquilo ao que já trazem em suas memórias e representações. Como a música é uma arte que se dá no tempo e pausando-a (no caso de ouvir uma gravação) ou se distanciando se perderia muito do discurso musical, o que as pessoas fazem quando chocadas é exatamente isso, geralmente já colocando uma barreira para com aquilo. Talvez questões cerebrais também pesem nesse sentido, já que uma música estocástica demanda muito mais atenção, pensamento e tentativa de “organização” (visualização de forma e lógica) do que um pop banal, além de causar desconforto, o que as pessoas não estão acostumadas quando ouvem música, salvo com trilhas sonoras ou coisas do tipo. Outro ponto são as funções extra-musicais (procurar parceiros, dançar, criar um ambiente propício para determinada atividade, etc) que a maioria das pessoas procura a partir dos sons.
Enfim… é um questionamento que sempre me assombrou e que não sei bem responder, mas acho que aí estão algumas pistas.
É, Thiago, é bem por aí mesmo. E o que mais me assusta nem é ver as pessoas que apenas digerem o ‘pop banal’, enredadas nas formas mais rudimentares da indústria cultural (que alguns intelectuais adoram afirmar que não existe mais!), mas sim as pessoas com consciência em outros campos culturais e completamente superficiais quando o assunto é música. Gente que acha que Caetano e Chico são exemplos do que de melhor e mais refinado a música produziu. Ou seja, não conseguem compreender ‘Música’ além do cancioneiro: sempre buscam uma ‘letra inteligente’ ou uma ‘melodia bem construída’.
O grande baixista Márcio Mattos, que cada vez mais tem explorado uma música de teor abstrato, me disse algo interessante sobre a improvisação livre:
“Não se trata de uma música comercial, mas também não é elitista, pois atinge diretamente o ouvinte, sem que ele/ela necessitem de conhecimentos mais elaborados de música comtemporânea. A ideia é a de trabalhar com ‘sons puros’ e livre de conotações culturais ou comerciais pré-estabelecidas.”
Pois é, Fabricio. A situação da “nova música” (já nem tão nova assim) é realmente intrigante.
Concordo com a colocação do Mattos no que tange a algo que devemos buscar, mas, apesar de “ideologicamente”, digamos assim, partilhar e semear essa busca, não sei até que ponto realmente essa música será ouvida sem inúmeros pré-conceitos ou barreiras.
Atualmente curso licenciatura plena em música em Ribeirão Preto, cidade que se vangloria por ser uma das mais movimentadas culturalmente do Brasil (não sei d’onde tiraram isso, mas tudo bem), e juro que não conheço absolutamente ninguém que cultive improvisação livre por aqui.
Na contramão – e colaborando com nossa idéia de que a música livre pode tocar as pessoas diretamente – deixo um relato pessoal. No show de Minton, Weston e companhia que rolou em Sampa levei minha namorada, que na época estava há mais ou menos um mês comigo. A priori confesso que fiquei um pouco receoso com quais seriam suas reações, pois ela até o momento só me havia mostrado gosto pelos “cancioneiros”, digamos assim, do Brasil.
Chegando lá, como você presenciou pelo que vi em antigas postagens no seu blog, Minton entrou rasgando na voz, o que ela me confessou depois que a assustou num primeiro momento. No entanto, no decorrer da apresentação, ela ficou surpresa e entusiasmada com tudo aquilo e ao final conversamos um bom tempo com os músicos (em especial com o Weston). Hoje ela me incentiva um bocado com minha música e sempre diz que quer ir novamente a um show de impro quando tiver.
Acho que devemos apostar em reações do tipo e continuarmos lutando com todas as forças. Sempre haverão aqueles que – vide a apresentação do Brötzmann em Sampa – vão a um show de Jazz e, distanciados do seu tão querido II V I, vão embora e depois falam mal do que nem se deram ao luxo de entender.
Enfim… de pedras brutas ou diamantes lapidados, vamos erguendo nossas fortalezas e torcendo por tempos melhores.
Um abraço
Então vc estuda música? Bacana isso… Tem se especializado em algum instrumento? Me parece que seu foco principal é a improvisação livre: tem gente que estuda com vc que se interesse por esse tipo de criação?
É uma pena que muita gente não dê chance à música livre. No sábado, no show do Yedo, a história foi a mesma: os caras tocando e o povo saindo, sem nem terem o respeito de esperar um intervalo entre as músicas… E não adianta falar de formação ou seja lá o que for: eu não sou músico, não tive uma educação musical formal (sou jornalista e tenho Mestrado na área literária) e descobri esse universo por conta própria, instigado pelas investigações que fazia em literatura e cinema: Lobo Antunes e Godard dialogam com Stockhausen e Brotzmann, não com ‘Caê’!!
Meus dois instrumentos principais são sax tenor e violão. Meus maiores interesses são em composição musical e improvisação livre, mas “foco” é algo complicado em minha vida atualmente por causa das dificuldades em se viver nesse contexto (Brasil, Ribeirão Preto, cidade massacrada pelas grandes mídias e que criou uma população totalmente alienada e aculturada).
Estou há um ano trabalhando como inspetor de alunos pelo Estado de São Paulo para você ter uma idéia. A priori, apesar do salário ridículo e das dificuldades enfrentadas (violência, tráfico de drogas comendo solto nas escolas, impunidade, entre outros), entrei nessa pra não me prostituir musicalmente. Isso, no entanto, me privou de poder estudar o que necessito por dia. A solução que encontrei é sair do Estado (coisa que farei agora em Agosto) e dar aulas de violão e saxofone.
À parte meus interesses na música, estou criando um repertório de música brasileira para a longo prazo tentar viver de música no exterior e dar continuidade aos meus estudos em música livre e de concerto.
Quando terminar a licencitura plena quero prestar Composição na Unicamp, mas fico receoso com as ínfimas oportunidades de se fazer música de concerto contemporânea no Brasil, além de saber como funcionam as “entrelinhas” da música dita erudita (com suas politicagens e afins).
Ah! sim, infelizmente não conheço ninguém que se interesse pela música livre em Ribeirão Preto. Por sorte ainda mantenho contato com brasileiros que possuem interesse e cultivam isoladamente seus sons e idéias e quem sabe possa vir a ter um projeto de peso um dia.
Ola Tiago e Fabrizzio,
primeiramente gostaria de agradecer e ao mesmo tempo parabenizar os dois, pois poucos criticos jornalistas, tiveram
a percepção e a coragem de abordar a verdadeira musica de improvisação livre, que no Brasil muitas vezes é confundida com performance teatral, só o fato de vcs terem a boa vontade de estabelecer uma honesta e verdadeira digressão histórica , já seria o suficiente para a utilidade jornalística das vossas matérias, mas vcs foram além, fazem a divulgação sistematica de quem trabalha nesta vertente enfrentando muitas dificuldades.
Eu gostaria de informar-lhes que nos dias 13 e 14 de novembro deste ano no CCSP realizaremos o 1o Festival Internacional Abaetetuba de Improvisação Livre Musical,
no espaço cênico Ademar Guerra e 04 oficinas todas gratuitas,o nome Abaetetuba para nós foi o inicio do retorno que conseguimos antes na Europa que propriamente no Brasil, este não é um grupo musical , mas muito mais um projeto nascido em 2002, com a intenção
agregar pessoas e musicos que se interessam de verdade em trabalho de pesquisa e experimentação sistematica de
idéias a respeito das possibilidades da musica, primeiro eu eo Yedo convocamos os meninos depois conseguimos a adesão do Marcio mattos , do Thomas Rohrer e agora da Michelle Agnes, e nos ultimos 02 anos temos conseguido concertos regulares com musicos importantes que vivem na Europa, e a turne de 2009 que nos levou a participar do XIII Festival Internacional Hurta Cordel de Madrid, a apresentações no Vortex no Mopomoso e no Bimhuis em Amsterdam , além da minha participação na Orquestra FOCO de Improvisação de Madrid momento em que trabalhei com William Parker como regente e também no duo de baterias que formei com Han Bennink no Zaal 100 Amsterdam enfim se vcs puderem nos ajudar na divulgação eu envio todas as informações e releases dos psrticipantes
muito obrigado pelo apoio a arte da improvisação livre musical, abraço , Antonio Panda Gianfratti
contato: pandafree@hotmail.com
http://www.myspace.com/antoniopandagianfratti
http://www.youtube.com/antoniopanda
Em primeiro lugar, seja muito bem-vindo, Panda. Agradeço os comentários elogiosos e fico muito feliz com sua passagem e com a notícia; dias atrás enviei uma resposta pra seu myspace, mas não sei se você já acessou e viu.
Aguardo mais informações, assim divulgo com todo prazer aqui e no Sonora Aurora.
Abraço!
Ola Thiago , td bem , não tenho acessado o myspace estou numa grande correria por causa da organização e preparação do festival , vc pode acessar o blog que preparamos para o evento é : http://fiil2010.blogspot.com/
ou mesmo o CCSP esta preparando na sua programação uma pagina para o festival.
agradeço muito a força esta é a parte crucial a divulgação
quanto mais pudermos informar da existencia deste evento
maior a chance de trazermos publico, espero que vc arranje um tempinho para participar, principalmente nas oficinas
, abraço , Panda Gianfratti
Opa! Amanhã, com mais tempo, posto sem falta aqui e no Sonora Aurora. Vou fazer de tudo para ir; é oportunidade imperdível a meu ver. Desde já desejo que seja um sucesso e tenhamos muitas outras apresentações e oficinas por aqui…
Abraço!
Olá, pessoal Como ouvinte e praticante de improvisação livre, venho tomar parte nessa discussão. Meu nome é Diego e meus projetos podem ser conferidos nos links ao final do texto.
Creio que esta reclamação de que o público é fechado a free improv deve ocorrer tanto aqui quanto em qualquer outro lugar do mundo. Não estou desqualificando o argumento de ninguém, mas quero generalizar, sim. Já li relatos de que o Evan Parker fazia shows solo para 30 pessoas em porões pelo mundo, Quando falei com Mats Gustafsson aqui em Porto Alegre ele disse que já tocou para uma dúzia só de barbudos na Alemanha e acho que aqui não vai ser diferente, ainda mais com artistas locais.
O show do Brotzmann em Porto Alegre teve um instituto Goethe lotado (150 pessoas talvez?) e devo dizer que 90% das pessoas estavam muito contentes com o que viram, mas lógico que teve gente que abandonou e um até tentou vaiar, sob olhares sanguinários! Fiquei realmente surpreso, pois não esperava tanta gente. Ah, o show era grátis.
O 2o show, no Studio Clio (R$ 40,00 em meados de 2008) teve menos gente, mas era uma audiência entusiasmada também – apesar de a imprensa local ter divulgado que eles “tocariam standards do jazz e composições próprias”, o que levou algumas velhinhas a um lugar não muito próximo do que elas esperavam. Eu vi da primeira fila, com os pés apoiados no palco e foi incrível. Embora tenha ocorrido algo que eu também não entendi: chamaram uma banda de jazz aqui de Porto Alegre para fechar o show que não tem nada a ver com o som que o Brotzmann faz – lembro de um dos músicos dizendo: bah, este cara (Brotzmann) é free que nem o Ornette! (???) – e ainda vi gente da platéia dizendo, entre uma ceva e outra no intervalo entre os shows: Vamos lá que agora é que vai começar! Eu não tenho nada contra esta banda, já fui a diversas apresentações e os caras fazem um Post-bop (sim, post-bop, altos improvisos, faixas longas, coisa fina mesmo, sem facilidades de covers de bossa nova) de altíssima qualidade, mas não combinava, definitivamente.
O que este episódio demonstra, além do eterno bairrismo sulista? Que o free improv, quando passa pela mídia, tenta ser suavizado (o quê foi o absurdo de dizer que eram standards que iam ser tocados?) para ver se tem uma permeabilidade maior. Acho que de boas intenções o inferno está cheio, e creio que não foi uma boa idéia também a “atração local”, não por qualidade, mas por desconexa. Também uma tentativa de trazer aquele “barulho”, mais para perto.
Aqui início foi complicado achar pessoas que queriam fazer free, mas depois que nós nos encontramos (na verdade antigos amigos que não tinham tido ainda a “cara” de montar um combo free improv) – e a medida em que íamos gravando e mostrando estas faixas para as pessoas, elas iam, surpreendentemente de certa forma, interessando-se em gravar com a gente, teve até gaiteiro – como chamamos aqui no sul – de música tradicionalista querendo participar. Você pode surpreender-se com músicos “tradicionais” querendo quebrar tudo. Poder expressar-se! Muitas pessoas vem e perguntam: “Mas posso ir lá com meu instrumento e tocar como eu quiser???” Ao passo que não é uma baderna generalizada – embora com momentos free for all no nosso caso particular – sempre damos liberdade aos convidados ainda não acostumados à esta estética.
Ainda falando de problemas, em relação ao público, estes não são somente o de estar produzindo uma música sabidamente de pouco – nenhum? – apelo; tem aquele momento em que você diz, para o dono do lugar interessado em ceder o espaço:
TOCAMOS MÚSICA LIVREMENTE IMPROVISADA. SAX/CLARINETE, BAIXO, BATERIA ELETRONICS.
Uau, que interessante! (Pensa aqui ele: Feito, vou fazer algo bem moderno para a intelectualidade da região).
OUÇA NOSSA MÚSICA!
(ouve. Duas faixas). É.. bem livre mesmo… vamos ver….
Mas, temos a internet. Lugar que oportuniza discussões como esta e que pode – como o blog do Fabrício Vieira, supracitado – ser um bom veículo para publicação/propagação. Por enquanto, creio que vamos nos manter em estúdios e publicando nossa produção no Blog. Não sendo fatalista, mas é este mesmo o caminho da free improv: uma audiência baixa, qualificada, que consome com apuro e de certa forma cultua a marginalidade do estilo. De nosso lado aqui, posso dizer uma coisa: Seguiremos!
Projetos:
http://bardosassassinos.wordpress.com/
bardosassassinos[at]hotmail.com
http://jamaisfomosmodernos.wordpress.com/
jamaisfomosmodernos[at]hotmail.com
Que a improvisação livre é marginal em termos de público, isso é quase que inevitável, ainda mais em se tratando de um país em que praticamente inexiste educação musical de qualidade. Mesmo em Londres, Alemanha e EUA (que já possuem um histórico de décadas) e possuem educação musical de qualidade, o cenário (?) se dá nesses arredores.
Quanto à escolha da banda que fechou o show do Brötzmann: coisas assim geralmente se devem a pleno desconhecimento daqueles que trouxeram o artista. Não consigo enxergar muitas alternativas para isso.
Em relação à abertura à livre improvisação da parte de novos improvisadores e espectadores, sinto que há certa facilidade em alguns momentos devido à comunicação direta que tal música geralmente possui e facilidade de abertura a pessoas de todo gênero de estéticas, histórias e nível técnico. Já fiz várias intervenções em lugares públicos com boas respostas, principalmente da parte de crianças.
Em Abril deste ano, eu e um grupo multi-mídia que reúno aos domingos conseguimos uma sala num evento com diversos tipos de arte em que a proposta era criar “espaços de interação e criação com o público em tempo real”. Tivemos respostas das mais diversas: gente que não conseguia se soltar, pessoas que se soltaram e depois não queriam parar de tocar com os instrumentos e objetos dispostos na sala, gente que conseguiu se inserir num “discurso musical”, outros que pareciam surdos ao seu redor e se fechavam em seu mundo… mas o mais interessante mesmo veio ao final, quando nosso improviso pareceu caminhar para uma espécie de música ritualística com fortes elementos da música africana; tinha um grande grupo de uma escola por lá e em poucos minutos aproximamente 40 pessoas começaram a cantar, tocar e dançar livremente pela sala. Tal vivência durou em torno de 30 e poucos minutos; tudo isso de maneira abstrata, longe de qualquer música pra entretenimento que provavelmente os presentes estavam acostumados a ouvir. Momentos assim me fazem ver que a improvisação livre é um dos caminhos mais interessantes a serem incessantemente explorados por todos aqueles que se interessam pelo fazer musical individual e coletivo contemporâneo.
No mais, faço das suas minhas palavras.
Abraço e seja bem-vindo.