Para se ter bases para compreender o que acontece nos inúmeros apontamentos da música na atualidade, é necessário, principalmente num primeiro momento, tentar pensar o que é a Música (como um fenômeno existente e ou como representação individual e social, entre outros), além de observar algumas características inerentes à produção musical e a que finalidades ela se presta.
Conta Armando Bugalho que, décadas atrás, quando perguntaram para Koellereutter quais seriam os caminhos para a Música no futuro, este respondeu que a “música de pesquisa” teria cada dia menos adeptos e se fecharia em pequenos contextos, a “música das massas” teria por alicerces a função social, e que praticamente qualquer pessoa poderia gravar e publicar suas próprias criações, independente de selos e gravadoras. Ele, como hoje sabemos, acertou em cheio nas três previsões.
Vou ( já complexificando um pouco a noção do que seja ou não música) visando possivelmente expandir um pouco a percepção daqueles que nunca pararam para pensar o que é Música (se é que ela não é um mero constructo ou juízo), ao que ela se presta na atualidade e a que nos prestamos quando a ouvimos, criamos e cultivamos, abordar de forma breve os seguintes conceitos (relativos, questionáveis, e que muitas vezes se interconectam) que venho pensando e repensando com base em minhas percepções e estudos: música como função social, música como fundo sonoro, música de pesquisa e, na falta de uma terminologia melhor, o que chamarei por enquanto de “música como expressão vital”. Creio que, músicos ou não, as pessoas que tomarem contato com determinadas expressões e impressões podem alterar o curso daquilo que hoje chamamos Música e terem uma vida psíquica muito mais rica e intensa do que a que tinham anteriormente, podendo, inclusive, enxergar o mundo e a própria existência com novos olhos.
Tentarei ser o mais claro possível, mas há possibilidade de algumas terminologias musicais não ficarem claras àqueles que não tomaram contato com as tradições da música ocidental e peço que comentem em caso de dúvidas, críticas ou sugestões.
Música como função social:
A música como função social se define pela organização dos sons com a finalidade de se atingir algo que está além da apreciação dos mesmos e que, aparentemente, não possui ligação direta com a música em ocasiões diversas. Em geral este tipo de música toma por alicerces mensagens claras (em geral remetendo a acontecimentos da vida da maioria das pessoas – amores, anseios, perdas), repetições e padrões simples de se pensar e memorizar – ritmos sem diferenciação ao longo de toda a música, melodias e harmonias simples e repletas de clichês, letras curtas e repletas de rimas -, a fim de conquistar grandes públicos e criar situações e ou ambientes em que se possa dar alguma atividade extra-musical. Como exemplo temos o baile funk, a micareta e o sertanejo comercial, que servem, entre outras inúmeras coisas que poderíamos elencar, como situação para encontrar novos parceiros.
Música como fundo sonoro:
A música como fundo sonoro é, após a invenção da gravação e das tecnologias que a reproduzem (rádio, televisão, mp3, etc) cada dia mais comum. Tal música geralmente toma por alicerces melodias que variam pouco em altura e raramente possuem grandes modulações e mudanças de intensidade na execução (o que, consequentemente, criaria desconforto e exigiria mais atenção do ouvinte), empregando largamente sons não vistos como dissonantes em determinada época e ou contexto e padrões fixos de pulso e andamento. Como exemplo temos vários standards de Jazz e algumas músicas da MPB que são tocadas em bares e restaurantes, o mp3 usado na caminhada como estímulo e fundo sonoro, o rádio tocado em baixo volume e ao qual nem se está prestando atenção; todos geralmente utilizados apenas para que o “silêncio” não tome conta do lugar, como uma paisagem sonora (termo de Murray Schafer) colocada não como arte, mas como parte decorativa de um ambiente e ou como “narcose para os ouvidos”.
Música de pesquisa:
A música de pesquisa se define pelas produções que tomam como alicerces a exploração das mais diversas possibilidades de criação e utilização de elementos musicais (ou mesmo “não-musicais”, em se tratando do que foi convencionado como utilizável em produção musical até determinado momento).
No Século XX, a música ocidental até certo ponto foi elevada a categoria de ciência sistematizada e arte que tende ao infinitesimal no que concerne às possibilidades de criação. No início do século, Arnold Schöenberg e Charles Ives reviraram as formas de se pensar e ordenar a composição musical, o primeiro partindo principalmente de novas formas de ordenar e dispor os 12 tons utilizados nas antigas tradições da música ocidental, o segundo fazendo proposições antes impensadas (músicas com alicerces em sons aleatórios e do ambiente que nos circunda, execução de músicas diversas sendo tocadas ao mesmo tempo, entre outros). Com o passar dos anos, tal música foi sendo expandida exponencialmente quanto às formas de entendimento e produção da mesma, mas, para não me alongar muito, vou deixar para outro momento uma abordagem mais detalhada “neste rumo”.
Música como expressão vital:
Tal conceito talvez seja o mais inverificável, abrangente e questionável dentre os expostos até o momento, mas vou, a cargo de reflexão e introdução, expô-lo mesmo assim. A música como expressão vital se define por aquela que parte como necessidade de seu criador, como uma inspiração ou necessidade fisiológica que submete seu autor e o incita à criação e busca de formas de se expressar, sem que o mesmo, salvo a muito custo e recalque, possa controlar.
Tal conceito, como é óbvio, pode englobar e gerar todo o tipo de música e expressão – produções que, por consequência de um resultado que, a priori, não buscava a comercialização, acabam fazendo sucesso, produções que figuram entre as mais complexas propostas de uma época, músicas ritualísticas que são passadas oralmente há milhares de anos.
Existem, por exemplo, aborígenes na África que não usam roupas, não pintam seus rostos (traços característicos em pouquíssimas culturas, mesmo nas que ainda não detém de grandes tecnologias), mas que possuem, como única forma do que entendemos como expressão artística num primeiro plano, a música há mais de cinco mil anos, sem que a mesma seja sistematizada ou escrita – o que não impede que, na maior parte das vezes, tenham ritmos muito mais complexos do que os utilizados na música das antigas tradições ocidentais e na música de cunho popular ou comercial.
Outro exemplo muito interessante é o caso de Charles Gayle, saxofonista que, esquecido pelos meios musicais, viveu mais de 20 anos nas ruas, sempre tocando seu saxofone e dizendo que sua música é dedicada a Deus. Gayle é geralmente classificado como uma das grandes figuras do Free Jazz, mas, certa vez, quando perguntado sobre seu “free jazz”, ele, desconhecendo o que se tratava, perguntou o que era aquilo.
Produções assim geram perguntas como: o que leva determinadas pessoas ou culturas inteiras a produzirem e cultivarem músicas durante toda uma vida, ou mesmo durante dezenas de gerações, sem que a mesma seja sistematizada ou sirva para funções extra-musicais?
Finalizando:
Como os mais versados em Música podem ver, este post não se propõe a ser sistemático, exaustivo, nem mesmo aprofundado, e existem inúmeros conceitos e explanações que podemos tecer aprofundando e criticando os esboços dos conceitos expostos; serve, antes, como ponto inicial para reflexões e apontamentos que quero tecer com o tempo, junto daqueles que possivelmente possam ler e criticar. Como já disse em outras palavras, acredito que, quando mergulhamos de cabeça no deixar-se imergir pelo mundo dos sons, pensando e repensando sempre o nosso lugar e percepção no mundo, podemos enriquecer em muito a nossa vivência.
Será o que chamamos de Música um fenômeno universal, um constructo, um juízo, um padrão de sons e pausas aos quais fomos submetidos a acreditar através de esquemas de reforço e punição (ver Skinner), uma linguagem?… Algo que se encontra entre mais de um de tais apontamentos?
Enfim, espero que o post seja de alguma valia para uma pessoa que seja; estou aberto a todo tipo de comentários.
Um abraço,
Thiago Miotto
Olá Thiago, tudo tranquilo?
Poxa cara, isso foi uma das melhores coisas que eu li em blogs até hoje, um artigo muito escalarecedor, além de trazer à tona uma série de questões que eu não havia pensado antes. Enfim, muito obrigado
“o que leva determinadas pessoas ou culturas inteiras a produzirem e cultivarem músicas durante toda uma vida, ou mesmo durante dezenas de gerações, sem que a mesma seja sistematizada ou sirva para funções extra-musicais?”
Eis uma pergunta muito interessante, agora que me deparei com isso não paro de pensar nessa tradição das etnias, que passou por milênios até os nossos dias atuais, e ainda se mantém um mistério.
Um abraço velho!
Fala Thiago. Obrigado pela visita!! Voltarei aqui com frequencia também. Gostei do seu post e os tópicos que cobriu sobre a música na atualidade. Logo também escreverei algo sobre “música de preenchimento” que tem a ver com o fundo sonoro que você escreveu, a qual Adorno condena de leve rs…
Abraços, Luciano (iBeans)
Fala, man!
Opa, que bom que gostou tanto. A idéia inicial é realmente incitar vários tipos de reflexões, independente do posicionamento e do conhecimento que o leitor tenha a respeito dos assuntos.
Várias pessoas vieram comentar via msn e orkut e pretendo dar continuidade. Meus posts no Atonalismo, no Sonora e meus papos via msn e orkut geralmente caminham mais para um lado impressivo, mas sinto falta de alguma abordagem mais, digamos, técnica fazendo menção a pontos tão diversos dentro do que chamamos Música. É por aí que quero caminhar com este blog.
Abraço!
É isso aí cara! Tens todo o meu apoio, vou começar a visitar os outros blogs com mais frequência hehe, um abraço, até.
Graaaande Thiago!
Muuuuuito bom mesmo seu blog!!Vou recomendar…
Abração e até.
Armando Bugalho.
Grande honra e surpresa te receber aqui, Armando! Fico realmente feliz que tenha gostado do blog. Em breve retomo os posts a respeito da Música, no momento tenho me ocupado de algumas leituras. Um dos que tenho lido, se é que não leu, chama-se “O Resto é Ruído”; é um livro fantástico que versa sobre a história da música do século XX de uma forma bastante rica e interessante. Altamente recomendável pra quem possui interesse… Apareça sempre,
Abraço!
Muito boa, Tiago, essa pequena introdução à música moderna. Embora bem resumida, dá pra ver que você pesquisa e entende do assunto.
Fez-me ainda pensar sobre alguns pontos não vislumbrados antes por mim, como por exemplo que boa parte da música moderna é apenas de fundo sonoro.
Enfim, um ótimo post.
Espero que continue escrevendo sobre estes assuntos e aborde-os mais profundamente. Nós, o público, é quem saíremos ganhando.
Seja bem-vindo, Caio. Muito obrigado e fico feliz com o que disse… Meu intuito com essas postagens é levantar reflexões e debates, pois não gosto de trabalhar com “respostas prontas” e “verdades absolutas”. Vou abordando com mais calma cada tópico aos poucos; a Música, a meu ver, é infinita, então sempre haverá o que pensar, discutir, criar e questionar.
Nos últimos dias escrevi uma pequena reflexão sobre as “vanguardas eruditas” do Século XX. Se puder ler e comentar…
Fala de onde?
Um abraço
ooooooooooooooooo muito bom
Olá Thiago acabei de ler o seu artigo e vejo que é muito interessante para o trabalho no qual estou fazendo na faculdade, que fala sobre musica e suas mudanças com o passar dos anos, e o seu artigo sobre musica na atualidade pode ser muito utilizado para eu me basear no meu trabalho. Gostaria de saber se posso usa-lo colocaria esse artigo com seu nome na parte de referencias bibliografias, porém para que eu possa usar seu artigo precisaria de suas referencias também, em quais livros você se baseou para fazer seu artigo.
Bom espero que possa me ajudar vou deixar meu e-mail para que possa entrar em contato caso queira fazer parte do meu trabalho.(bruna.fc2@gmail.com)
Fico no aguardo da resposta.
abraços
Em primeiro lugar, seja bem-vinda, Bruna. Fico feliz que tenha gostado e é uma honra poder ver que minhas pesquisas e amor pela música estão alcançando mais pessoas de uma forma ou de outra.
É claro que pode utilizar o texto; amanhã sem falta envio em seu e-mail alguns livros que me ajudaram.
Ah! sim, cursa música em que universidade?
Abraço
Eu não faço faculdade de música e sim de letras na Unip, como música e algo que adoro resolvi fazer meu trabalho sobre.
Fico muito feliz que possa me ajudar, aguardo seu e-mail
Abraço
oi thiago vou fazer uma palestra sobre musica!
alem de tar no ensino medio gostei de mais do seu texto peço que guando voce ler o meu recado que me mande dicas para a minha palestra
Hm… difícil dar dicas por aqui, depende muito de qual seu foco e do que você quer passar com a palestra. Há algum tema específico dentro da Música ou é aberto?
Abraço
valeu cara vc me ajudou muito com a feira de ciências da minha sala um abraço!!! me add orkut e msn: alissonnatan_@hotmail.com o msn e´o mesmo do orkut !! fui.
Opa! fico feliz, Alisson. Quase não tenho acessado o orkut, mas dá pra me achar no facebook por Thiago Miotto.
Abraço
cara,achei muito interesante,o que vc escreveu sobre a música sobre a arte.eu fiz um trabalho sobre o que vc escreveu acima,e ele valia 15pontos,eu tirei os quinze pontos.valeu gostei muito.um abraço
gosteiiii!!mais é muito grande!!! Uaiii♥
Thiago Miotto! Parabéns! adoreii demais! Muito interessante essa sua postagem, que esmiúça a música, nos dá uma resumido e profundo estudo sobre o que música. Vlw! Abração!