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Giacinto Scelsi

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Scelsi é atualmente considerado por alguns pesquisadores e compositores como um dos principais nomes da música da segunda metade do Século XX. Sua vida e obra são um tanto, digamos, exóticas e se interligam e justificam. Italiano de família nobre, Scelsi cresceu em um castelo, sem ter que preocupar-se em trabalhar e podendo utilizar seu tempo como bem entendesse. Contam que, desde criança, passava horas numa espécie de transe ao piano, sendo este o único momento em que conseguiam cortar seu cabelo.

Jovem, tomou contato com boa parte do cenário da “alta cultura” européia e estudou as vanguardas da música de sua época, a priori compondo de acordo com os novos apontamentos de seu tempo (atonalismo, dodecafonismo). Viajou vários países (Egito, Nepal, Tibet, entre outros) com os quais tomou contato com cultos e conhecimentos ditos secretos. Desde então passou a estudar e absorver cada vez mais facetas da música e da filosofia “oriental”, que se refletiram em suas obras posteriores.

Sua, digamos, “segunda fase”, sendo praticamente desconhecida e ignorada por seu tempo, aponta para caminhos ainda pouco percorridos na música e que só nos últimos anos estão sendo trilhados por mais compositores. O insigne trato com o timbre, o tempo, a dinâmica, as mais ínfimas mudanças, tudo isso se verificou anos depois em composições posteriores a Scelsi: Atmospheres e Lontano, de Ligeti, e, mais atualmente, com Tristan Murail, Gerard Grisey e a dita “música espectral” - compositores-pensamentos dos quais pretendo falar mais a respeito neste blog.

A filosofia oriental, a mitologia, a idéia-crença-sensação de infinito, o transe, o rito, a improvisação… tudo isso, aliado ao domínio técnico e teórico anteriormente trabalhado, criou um conjunto único em toda história da música.

Scelsi, em sua segunda fase, afirmava “receber” as músicas de seres superiores, não mais compondo de forma escrita. Ao invés de sentar para compor e escrever, ele apenas “improvisava” e gravava em diversos instrumentos (as gravações estão disponíveis em Roma, e somam mais de 700 horas); após este processo, alguns “funcionários” transcreviam as obras, sendo, é óbvio, revisadas por ele.  O mais espantoso nisso tudo é ver a complexidade, o ineditismo e a grandeza de obras que partiram de improvisações.

À parte isso, Scelsi também foi poeta e escritor, versando sobre várias de suas concepções. Partes de sua vida são um tanto obscuras e misteriosas, e reza a lenda que ele teve por anos uma doença em que “suava sangue”, da qual sofreu severas crises enquanto compunha a obra máxima de sua primeira fase “La Nascita del Verbo”.

Enfim… eu poderia escrever mais um bocado, mas tudo seria apenas uma gota no oceano da existência deste homem. Abaixo, deixo um link para download de algumas das obras mais significativas de sua segunda fase, uma tese de mestrado em português da autoria de André Siqueira, da qual retirei boa parte das informações que aqui posto no momento, e vídeos no youtube de três das obras que constam no download.

Boa audição e meditação…

Download: Giacinto Scelsi – Quattro Pezzi, Anahit, Uaxuctum

Tese: O percurso composicional de Giacinto Scelsi: improvisação, orientalismo e escritura (André Ricardo Siqueira)

Vídeo: Uaxuctum – Primeiro Movimento – Subtitle: “The legend of the Maya city, destroyed by themselves for religious reasons.”

Vídeo:  Giacinto Scelsi: Quattro Pezzi (su una nota sola) per 25 esecutori (1959) Primo e Secondo Movimento

Eli-Eri Moura

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Eli-Eri (lê-se Eliére) é um compositor, teórico e regente brasileiro que fez mestrado e doutorado em Composição no Canadá. Conheci há pouco sua obra e me interessei pelo que ouvi; fui pesquisar mais e percebi que temos posições e concepções em comum em relação à situação atual da Música. Se fosse para tentar inserir sua obra em algum espaço, diria que ela parte do que chamei de música de pesquisa no post introdutório sobre a música na atualidade.

Por fim, deixo duas de suas obras: Circumsonantis, para quarteto de cordas, e Requiem Contestado, para solistas, coro e orquestra de câmara – muito interessante e inusitada em sua proposta e composição, além de ser um belíssimo trabalho para quem aprecia réquiens e uma finíssima crítica. Para quem se interessar, é possível encontrar outras obras disponíveis para download no site do Compomus.

Sobre Eli-Eri Moura

Circumsonantis

Partitura Circumsonantis

Réquiem contestado

I


Ah, se eu pudesse renascer menino!
E pelos Céus erguer meu coração
A projetar, na pipa em desatino,
A Liberdade, o Sonho em minha mão…

Menino, posso ver em seu olhar
Agora, erguendo a pipa contra o vento,
O quanto lhe emociona transformar
O sonho em fato, a vida em movimento!

Erguendo a face multicolorida
Revejo tantas horas na memória
Que rio-me da face desta Vida
Colhendo e recolhendo a mesma história…

Pareço retornar à minha infância
No chacoalhar da pipa pelo Céu:
Naquele tempo toda a minha ânsia
Morava no enrolar dum carretel…

Agora o carretel se desenrola
Enchendo a nova infância de Alegria,
Enquanto eu, velho, sonho ser o outrora,
Enquanto eu, velho, verso o que vivia…

Ah, se eu pudesse renascer menino!
E pelos Céus erguer meu coração
Me misturando à pipa em desatino,
Ter Liberdade e Sonho em minha mão…

II

Que sentido existe nas entrelinhas da existência? Diz o filósofo que só podemos buscar o sentido através dos sentidos.

Vou para a rua. Carretel em mão, cerol na linha, pé na grama, grama no nariz, sol nos olhos, som dos passos. Ergo a pipa contra o vento, que assovia na pipa.

Ouço! O mato cheira pós-chuva; a pipa, pipa. Que sentido me mostrarão os sentidos e as entrelinhas? Descarrego. Sinto o cerol na mão-linha. O carretel – reflexo do Sol – grita, a pipa – reflexo do Sol – tateia os espaços. Um dos reflexos do Sol toma outros sentidos com o vento.

A Terra gira. Elipse. A Terra meus dedos pipa linha gotas na grama grama girando ao redor de si e do Sol. Um sentido parece oculto. Elipse; sinto o sabor da manhã na boca. Cuspo. A grama cheira pós-cuspe. Piso.

Tato! Peso X Normal; atração universal dos corpos. O Sol fustiga meus olhos; na ânsia de tapar os olhos com as mãos a pipa muda de sentido; a memória da chuva, o cuspe, a grama, o Sol, eu, a linha: tudo conversa pela gravidade.

Mudança universal dos sentidos!

O carretel, abaixo dos olhos, dos ouvidos, do nariz e da boca, dita o sentido de toda(s) a(s) (entre)linha(s). Finalmente o tato de meus olhos encontra o cheiro do som das luzes saborosas…

Papo entre poetas

O poeta é um fingidor (…) bla bla bla. (Fernando Pessoa)

Meu caro amigo, pare pra pensar
Se sua luta é tão assim sofrida…
Vou te contar a história dumas vidas
Que sonham sempre presas num lugar:

Senhor Silvério vive sempre sujo
Entrou em depressão depois que o filho
Vendeu a casa em troca de algum luxo,
Deixou-lhe e nunca mais voltou no asilo.

Senhora Rita vive de fachada:
Se diz saudável, nova, coisa e tal…
Mas, nem bem mente, corre pra privada
Pedindo um novo esfíncter uretral.

Senhora Célia não tem mais família:
Perdeu marido e filhos pra acidente.
Agora, pra poder seguir em frente,
Implora e roga à Santa Irmã Cecília.

Senhor Valdir caiu do quarto andar
Enquanto trabalhava numa obra.
Não tinha tempo; agora, tem de sobra,
Mas mal consegue se comunicar.

Falei de poucas vidas; tantas mais,
Tão diferentes, vagam pelo escuro
Vivendo de passado atrás dum muro,
Somente acompanhadas com seus ais…

Enfim… recado dado. Pega o léxico,
A rima, o verso e toda a sua dor
E vai cantar a vida c’outra cor,
Fazendo, enquanto há tempo, muito sexo.

Agora dá licença, que eu preciso
Pegar o dicionário lá no Fusca.
Preciso de uma rima pra suplício
E dar mais um soneto pra m’nha Musa.

Ensino atualizado

O Amor nasceu da Musa que dos Céus
Desceu por entre flores luminosas
Eleita dos perfumes de mil rosas
A se ocultar atrás dum longo véu

O Amor assim descansa em mausoléus
Não fede nem mais verso e nem mais prosa
Só fede aquele que morreu na fossa
E em livros veste ternos e chapéus

Passando pelo século romântico
Veremos muitos homens que da vida
Partiram versejando sem descanso

E enquanto versejavam lindos cânticos
A Musa que sonhava ser comida
Matava na fazenda mais um ganso

(último da série “João Pessoa – Primeiras Histórias”)

à Clarrissa Yemisi


Quase tornados Um em comunhão,

Independentes n’alma e dependentes

Dos corpos unos, das retinas rentes,

Ébrios de vinho, verso e de emoção

Amamos tanto! E (torço) tornaremos,

Tomados de um prazer indefinido,

A resvalar nas Portas do Infinito

Sentindo a luz dos páramos supremos!

Que sóis, que sensações de Antigos Mundos

Queimaram nossas almas, nossos corpos

Deitando-nos em páramos, em portos

De intraduzíveis gozos tão profundos!

Em frente aos Céus, em frente a tanto Mar,

Com vinhos, versos, sons e sentimentos

Tornamo-nos os mesmos movimentos:

Um corpo e duas almas a bailar…

Por toda parte, sem nenhum pudor,

Do Amor tecemos todas nossas artes,

Tecemos d’Arte todo nosso Amor,

Sem ter pudor, amando em toda parte!

Fartamo-nos de gozo, riso e sonho,

Da vida em toda sua exuberância

E, agora, em que só resta-me a lembrança,

Não sei nem ser feliz nem ser tristonho…

Parando co’esta tola tradução,

Que em vão tentou falar do intraduzível,

Só peço pro Destino inconcebível

Que mate-me ou dê-me a tua mão!

Em vista de estar sozinho na empreitada (que empreitada?) do blog, e pra não ficar só com minhas limitações, além de poder divulgar um bocado de coisas boas que rolam por aí, inauguro com este post uma espécie de lacuna por aqui, trazendo produções de conhecidos meus.

Fillipe Jardim é um camarada que conheci há pouco tempo e que está me surpreendendo com seus escritos. Não vou me alongar com elogios e críticas desnecessárias, então deixo apenas um de seus últimos contos que me chamou atenção, e a abertura para que vocês possam julgar/comentar, ou não. Eis o dito cujo:

Homo sapiens sapiens


Fecho a tampa. Ela se debate, se contorce, golpeia a parede furiosamente. Eu apenas assisto. Sinto o sofrimento sendo exalado de seu pequeno rosto. Para mim, perfume, néctar, como ela gostava, imagino. Observo cada movimento, cada batida deseperada e fico ponderando se ela não está pensando “eu poderia ter ferrado este idiota, que imbecil que eu fui!”. Involutariamente, um sorriso de malícia e crueldade se instala na minha face. Ela percebe, eu acho. Agora nos encaramos. Observo o seu ventre cansado, mostrando-se a mim na parede transparente. Também me canso. Balanço várias vezes até ter certeza de que ela estava morta. O corpo da abelhinha fica contraído, molhado pelo resto de refrigerante acumulado no fundo da garrafa de guaraná antarctica. Peço a conta finalmente. Saio do restaurante empoierado de barriga cheia e cheio de mim. Sou predador. O topo da cadeia alimentar. Respiro fundo, triunfante.

Na rua, reflexões: seres humanos exercendo o seu poder sobre o restante dos animais, e sobre outros humanos também, simiescos humanos, e assim que penso isso passa um homem, braços fortes, arrastando uma enorme carroça de lixo. Vai rápido, puxando com graciosidade todo o peso das tralhas que catara a manhã inteira, imagino. Tem um rosto impassível, de lutador, ameaçador. Conto as moedinhas na minha mão, conferindo a passagem para o ônibus. Esses metaizinhos que eu contava valiam toda a manhã daquele cidadão. Pensar na vida e olhar os letreiros nos coletivos, lugares que não serviam para mim, que serviam, mas estavam cheios, gente subindo e descendo. O meu ônibus chega, ponho a mão para rua e ele para quase subitamente. No lixeiro ao lado do poste, moscas. Moscas, ratos, abelhas, macacos. Fumaça, calçadas, capim. Embalagens, latas, crianças. Amor, trabalho, vida. Abro um livro, Maravilhas do conto latino-americano, e leio “A caça da serpente” de Arturo Ambrogi, El Salvador. No conto, uma cobra que preparava uma galinha para ser deglutida e digerida em uma sesta revigorante e majestosa é surpreendida por um grupo de caçadores, urbanos homens, guiados por um índio no enorme milharal. Um tiro. A sepente corre para a plantação, ferida de morte. Os homens vão embora, recuperados do susto. A galinha fica abandonada, enzimas em sua superfície, esperando a digestão que não acontecerá mais. Antes de descer do ônibus, olhando furtivamante para um decote, penso no carroceiro, suor em sua pele, esperando a serpente. A serpente.

Em casa, o que é um bom veneno? Controle remoto em punho, a televisão não ajuda. Em cima da geladeira, paracetamol, dipirona, luftal, bolachas cream cracker, um panfleto de vendedor de gás. Ela deixou almoço pronto, eu disse que iria almoçar na rua. No banheiro, o que é um bom veneno? Há uma vasta gama de opções, não tenho coragem de beber nada, água sanitária nem pensar, tem cheiro de esperma, muito menos detergente, o cheiro me deixa enjoado, xampu não, tem consistência de novalgina ou mel. Não defeco, não me masturbo, não escovo os dentes. Não há nada para se fazer. A tarde é longa.

Estou deitado na cama. Escuto ela entrar em casa. Finjo que não percebo, viro o corpo para o lado, simulando sono. Ela não quer me incomodar, os meus olhos semicerrados, olho o relógio na parede, três e dezesseis, “Oi, querida, já chegou?”, Ela tem um corpo interessante, uma barriga que é quase grande, seios que escorrem do busto, apontando para frente com sutileza, estrias também sutis, que zebram a parte posterior de suas grossas coxas, uma dobrinha de gordura no pescoço, que eu acho um charme, cabelos tingidos de vermelho, olhos de breu, que me dão vertigem ao fitá-los, pois parecem o fundo de um abismo de terror. Lábios fino, dentes um pouco para frente, sendo um dos incisivos levemente torto para a esquerda, porém isso dá um ar de existência e dignidade ao seu sorriso. Constatei que a minha admiração não tinha tamanho, “Cheguei”, Ela respondeu, “como foi hoje? Nada?”, “Nada”, odeio o desemprego só por causa dessa pergunta. Vida.

Sapiens,  sou sábio. E as reflexões percorrem meus neurônios com a inconstância da minha própria existência. Eu me agarro a Ela na cama, Ela diz que está cansada, eu mordo a sua nuca, Ela enfia suas unhas nas minhas costas, bafeja na minha orelha, a penugem leve dos seus braços se eriça. Vida. Cravo-lhe mordidas, Ela me responde com fúria. Cheios de mãos e pescoços. Cheios de nós. De nós e de nós, pronome e substantivamente orientados. Somos carne, sangue, calafrios, fluidos, fluidos, palavras. Olho para o seu rosto. Dois abismos de terror saltam sobre mim. Vida. Somos ira.

Ela não me responde. Eu não faço mais perguntas. Ela ainda me observa. Eu não me escondo. Enzimas, o suor escorrendo pelo meu pescoço, pelas minhas costas. Ofegante, respiro fundo. Vou até o banheiro, sorvo a garrafa de detergente, vomito várias vezes. Sinto que a minha língua engrossa. Vomito no corredor, em frente ao quarto. A porta aberta. Ela ainda olha para onde eu estava parado. Ela não respira, sangue no canto de sua boca. A janela aberta. Uma mosca entra. Pousa em seu seio. Fico de pé na cama. O inseto voa, pousa no filete que sai da boca da Minha Querida. Os olhos ainda abertos, abismos de terror, a mosca pousa em um deles. Lá fora, lá embaixo, transeuntes. Décimo andar. Um salto sobre a existência. Mergulho, o vento perpassa minhas nuances, ensurdece os meus ouvidos. Um abismo iluminado pelas luzes da noite que chega, o laranja da poluição no céu do crepúsculo. Sapiens.

Queria acordar no inferno, mas acordo ao lado dela. A noite já alta, a janela aberta, refrescando o nosso quarto. Sua bunda faz um desenho muito bonito quando ela está deitada, posição fetal, as pernas encolhidas. Observo a rua lá embaixo. Vou ao criado mudo e cato um cigarro, ela sempre deixa uma carteira lá, mas quase não fuma. Eu também não fumo muitos cigarros. Não sei o porquê deste costume. Deve ser porque não temos filhos. A brasa entre os meus dedos, as nuvens arroxeando o céu, amarelo, vermelho, verde, branco, cinza, preto, é o mundo que se desenha em luzes e sombras abaixo de mim. Vivo? O topo. Até o cigarro terminar, pondero se estou vivo ou morto. A fumaça me mostra que ainda sou eu. Preciso sair.
Não sei por que eu caço. Não sei se é a vontade ser vencedor, ou o medo de ser para sempre um perdedor, ou a busca para algum significado além dos que eu já conhecia. Procuro dinheiro na bolsa dela. Ela sempre tem, eu sempre roubo, ela sempre reclama. Cinquenta reais. Ela ainda dorme. Não faço barulho. Cachimbo no bolso. Dá-me uma curiosidade de saber as horas, mas não o faço. Não me importa. Venço dois quarteirões de caminhada. O caos, carros ainda passam aos montes. Sete da noite, talvez. Ainda tenho muito tempo até que ela me encontre. O magro encostado na parede, meninas e meninos ao seu redor. Ele me vê, “Eu quero duas”, e passo a nota para ele, quarenta de troco, cachimbo na mão. Crack crack, faz a primeira pedrinha em combustão, crack, crack, eu sou o homem mais forte do mundo, porra! Aspiro fundo, eu sou o topo, a pedrinha é consumida, respiro fundo, crack crack faz a segunda, silvo, solto um grito, devolvo o isqueiro para o magro, até mais. Mais.
Sigo pelo quarteirão. Tusso, coço meus braços, talvez mosquitos tenham me picado. Quarenta reais ainda, me seguro para não comprar mais pedrinhas. A coceira aumenta, uso as unhas sem dó, até os meus braços arderem, até eles verterem uma pequena quantidade de sangue. Sento abaixo da marquise de uma loja fechada. O vento batendo nas minhas feridas, fazendo-as arder, arder. Olho para a direita e Cibele está lá. Vou logo ao encontro de Cibele, ela me cumprimenta, não tenho muito tempo, Ela já está me procurando, eu acho. “Vinte o boquete”, e subimos a escada suja que leva aos quartinhos, e eu sento na cama de cimento, Cibele apertando as minhas bolas, percorrendo sua língua pelo meu ventre, a barba dela nascendo, arranhando de leve a minha pele. Refestela-se com o meu gozo. Suja o seu rosto com minha porra, eu sorrio. Dou um soco forte na sua cara, ela grita, surpreendida e eu chuto o seu rosto, aproveitando o corpo dela curvado, bato na cara com os pés, com as mãos com os cotovelos, até ela se tornar uma papa vermelha, até ela borbulhar de sangue. Cibele é frágil. Deitada no chão, o sangue coagulando no chão do muquifo. Pulo duas vezes sobre a sua cabeça. Tiro o dinheiro que está escondido no seu seio. Ela não responde.
Na rua, encontro o magro novamente. Estou sujo de sangue. “O que foi isso?”, ele pergunta e eu dou duas notas de dez, uma de vinte e duas de cinco. Dez pedrinhas que escondo no bolso. Peço emprestado o isqueiro, “amanhã te devolvo”. Vou caminhando para casa, adrenalina pulsando forte. Sapiens, adrenalina escorreria pelo meu corpo se eu fizesse agora uma lobotomia. Dez andares, Ela acordou? Vou pela escada de incêndio, paro entre o terceiro e o quarto andar. Fumo cinco pedrinhas, crack, crack, crack, crack, um cheiro forte nas escadas, eu tenho a sensação de que meus dentes estão trincados. Corro, sou o homem mais forte do mundo, porra! Venço os andares também. Estou empapado de suor, sem ar, enzimas. Abro a porta. Tudo escuro. Vou até o quarto. Ela ainda dorme. Beijo o seu pescoço frio, sua pele fria, um pouco rija, suas pernas não se movem facilmente, deve ser a janela aberta, o frio entrando pelo quarto. A bunda dela ainda mantém o desenho lindo. Me excito. Vou ao criado mudo e cato uma tesoura. Corto o seu short. Viro um pouco o seu corpo e contemplo a sua vagina. Brinco um pouco com os dedos e a sinto intumescer. Lambo o corpo dela, como a serpente que comeria a galinha, até os caçadores chegaram. Olho o relógio, mas está escuro demais. Ouço a sua voz, me chamando baixinho. Vida. Não há caçadores hoje. Sou predador. O topo da cadeia alimentar. Respiro fundo, triunfante.

“No abuso da mulher – a inspiração!”
Sonhava que era artista o bandidinho.
Tecia as suas “obras” num cantinho
Usando o peito, a bunda, a boca, a mão…

Coragem? Tinha (!), mas jamais sozinho:
Trazia, na cintura, o seu “oitão”;
Com ele, se tornava o mais machão,
Co’o “cano” já traçava o seu caminho.

Um dia, enfim, foi pego – a mão na massa!
Agora, na cadeia, em várias partes,
Com canos novos tece novas artes,
O artista (muito macho!) um macho abraça…

Cantos Noturnos

Buscai a Natureza e encontrarás Paz e Inspiração. (provérbio chinês)

Vozes sem verbo, vozes incessantes,
Que velha maldição as colocou
Nas sombras a cantar a todo instante
Nas sombras, a cantar, as colocou?!

Que querem me dizer
Estranhas vozes
Que cantam
Pelas trevas
Noite adentro?!

Mil noites sem dormir
Estranhas vozes
Mil noites
Perturbadas
Que as enfrento!

Cigarras, sapos, sombras… o que seja!
Pra puta que os pariu com tal barulho!
Para aguentá-los: só com uma cerveja,
Ou delirar fumando outro bagulho…

À Clarrissa Yemisi

Não peça, Amor, que eu possa prosseguir
Na senda escura, após haver achado
No seu calor, a rota do porvir,
E no porvir, a cura pro meu fado.

De loucas esperanças abraçado,
Não peça, meu Amor, a mim não peça
Que viva de lembranças e passado,
Vestindo-me de dor e de tristeza.

Em loucas esperanças, como outrora,
Em loucas esperanças abraçado,
Tenho sonhado a cura pro meu fado,
No peito lhe trazendo a toda hora…

Não peça, meu Amor, a mim não peça
Que no porvir, a cura pro meu fado
- Vestindo-me de dor e de tristeza -
Seja viver lembranças e passado.

Que no porvir, a cura pro meu fado
Seja passado, seja só lembrança…
E que possamos ter, sempre abraçados,
Mil sonhos e mil outras esperanças!

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