Mané-mudim: mendigo, surdo-mudo, analfabeto. Depois de anos pelas ruas, ele já nem ligava para banho. Além disso, descobriu que conseguia dinheiro e comida mais facilmente quando estava nas situações mais deploráveis.
Cidade em crescimento, calçadão, comércio… não faltavam sobras de comida e falta de roupa aos seus olhos. E foi num que prometia ser um dia qualquer destes em que pedia dinheiro e espiava por entre as saias, que avistou aquela que mudaria para sempre seus pacatos dias.
Era de fora, tinha certeza, recém-chegada. Foi logo ver mais perto, mas, consciente de seu estado deplorável, tratou de manter certa distância.
Ela era linda, linda… mais linda que as mulheres das revistas que ele parava para olhar nas bancas da praça. Os olhos como não se via ali, os lábios como não se via ali, o porte esguio como não se via ali; cabelos, curvas, seios, tudo, tudo como não se via ali…
Depois de perder-se demoradamente naquela que era a visão mais bela que ele já havia presenciado em vida, percebeu que ela entregava papéis em frente a uma loja que acabava de ser aberta. A gente que passava ali mudava o curso para ver melhor aquela que não se via ali.
Ele precisava descobrir o que havia naqueles papéis, mas jamais se aproximaria dela naquela situação.
Dirigiu-se então até um lixo mais distante, no qual um homem acabava de amassar e atirar um deles. Mané-mudim, puto, só entendeu o desenho do dinheiro ao lado daquele bando de letras sem sentido. Com cuidado, guardou no bolso aquele objeto misterioso.
Ficou desesperado. Mané-mudim – mendigo, surdo-mudo e sujismundo – a quem recorreria?
Via o dia correr e não sabia o que fazer. Ela: linda, linda… Ele: ele, ele…
Noite caindo, lojas fechando; aquela que não se via ali entrou na loja logo atrás e saiu acompanhada de outro rapaz. Ambos, aos olhos distantes e enciumados de Mané, entraram num carro e foram embora.
Ao longo da noite, Mané-mudim pensou mil coisas. Tomou banho e decidiu que tomaria um novo rumo na vida para poder conhecer e conquistar sua amada.
No outro dia correu admirá-la ao longe. Parecia ainda mais linda… Ele? Talvez fedendo menos.
O dinheiro era pouco, as roupas que esparsamente ganhava eram velhas, sua barba e cabelos, que ele não deixava cortarem jamais, eram imundos e enormes.
Muitos dias depois, quase louco e sem esperanças, mané-mudim bolou um plano: voltaria à Associação de deficientes auditivos, lugar para o qual havia sido quase arrastado anos antes, e pediria estadia, roupas, cortaria cabelo, barba, aprenderia a linguagem de sinais…
E foi assim, entre horas por dia admirando-a de longe e horas na Associação, que Mané-mudim mudou de vida. Deixou de morar nas ruas e pôs em prática o planejado.
Pouco tempo depois, mais consciente da linguagem de sinais, perguntou a um voluntário da associação e descobriu que o misterioso papel trazia escrito “Precisa de dinheiro? Compra-se ouro.”
Ouro? Até Mané-mudim, mané que sempre foi, sabia que aquilo era muito caro.
O homem novamente ficou louco e foi que foi atrás de emprego. Acabou, depois de muitos nãos, descobrindo que ninguém gostava de limpar banheiro.
Assim, Mané com novo fôlego passou a trabalhar dia e noite, enquanto imaginava sua amada em frente à loja, e como seria fantástico levar ouro para ela, olhar fundo nos seus olhos, sentir seu ainda desconhecido perfume…
Quatro meses se passaram desde que Mané começou a limpar banheiros de bares, postos e rodoviárias; sem gastar um tostão, só pensava no encontro, trabalhando e estudando feito louco, se abstendo até de ver pessoalmente sua amada. “Já perdi muito tempo na vida!”, não cansava de pensar Mané-mudim com sua nova linguagem de sinais.
Com seis meses, já não aguentando ver a amada somente em pensamentos, Mané tirou 15 dias de férias dos banheiros. Comprou um imenso buquê de flores e duas alianças de ouro branco que iria pagar em prestações a perder de vista; colocou a melhor roupa e sapato que tinha e foi, com a ajuda da fala de um voluntário da Associação que traduziria seus sentimentos e sua história emocionante, surpreender sua amada.
O coração aos arrancos, a ansiedade estampada nos olhos, os passos aflitos… Mané se deparou com a loja fechada e uma placa de “Vende-se”.
Mudim chorou como uma criança… O grande dia estava arruinado. E agora, onde encontraria sua amada?
Os lojistas do local afirmaram que a loja havia fechado a mais de um mês, sem deixar contatos ou um novo endereço. De fato, na entrada da loja não havia absolutamente nada que indicasse onde procura-la.
Naqueles 15 dias Mané não parou. Andou de Norte a Sul em lojas, bares, restaurantes, parques, praças, ruas, ruas, ruas… cinco, dez, quinze, vinte vezes no mesmo lugar…
Ninguém nunca mais havia visto aquela que não se via ali.
No Dia da Proclamação da Independência, bêbado, mudim viu um homem vendendo uma arma num boteco. Após muito pensar e pesar tirou as duas alianças que sempre carregava no bolso e ofereceu ao homem em troca da arma. O homem topou.
Minutos depois, no calçadão lotado, Mané arrombou a porta da loja com um chute e entrou com lágrimas nos olhos no tão sonhado local em que revelaria seu amor.
Nos jornais e na boca do povo sua história e suicídio viraram um marco da cidade.
Já distante de lá, aquela que não se via ali nunca ficaria sabendo da existência do mané. Outrora insatisfeita com seu emprego, ela descobriu que vender seu corpo dava mais dinheiro e prazer do que entregar papéis.